domingo, 17 de setembro de 2017

Estudo aponta relação entre nutrição e inteligência


A nutrição tem sido ligada à performance cognitiva, mas os pesquisadores ainda não identificaram em que se baseia essa conexão. Um novo estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Illinois descobriu que ácidos graxos monoinsaturados [conhecidos como MUFAs, do inglês monounsaturated fatty acids] – uma classe de nutrientes encontrados no óleo de oliva, em nozes e abacates – estão ligados à inteligência geral, e que esta relação é guiada pela correlação entre MUFAs e a organização da rede de atenção do cérebro.

O estudo de 99 adultos idosos, recrutados através do Carle Foundation Hospital, in Urbana, comparou padrões de ácidos graxos encontrados em amostras de sangue, em MRI funcional que mediu a eficiência das redes cerebrais, e nos resultados de um teste de inteligência geral. O estudo foi publicado na revista NeuroImage.

“Nosso objetivo era entender como a nutrição deve ser usada para apoiar a performance cognitiva e estudar as formas pelas quais a nutrição pode influenciar a organização funcional do cérebro humano.” disse o líder do estudo Aron Barbey, um professor de psicologia. “Isso é importante porque se desejamos desenvolver intervenções nutricionais que são efetivas para o aumento da performance cognitiva, precisamos entender as formas pelas quais esses nutrientes influenciam a função cerebral.”

“Neste estudo, examinamos a relação entre grupos de ácidos graxos e as redes cerebrais que sustentam a inteligência geral. Ao fazê-lo, procuramos entender se a organização da rede cerebral mediava a relação entre ácidos graxos e a inteligência geral,” disse Marta Zamroziewicz, uma recém-graduada em Ph.D do programa de neurociência em Illinois e autora principal do estudo.

Estudos sugerindo benefícios cognitivos da dieta do Mediterrâneo, que é rica em MUFAs, inspiraram os pesquisadores a focar nesse grupo de ácidos graxos. Eles examinaram nutrientes no sangue dos participantes e descobriram que os ácidos graxos se agrupavam em dois padrões: ácidos graxos saturados e MUFAs.

“Historicamente, a abordagem tem sido focar nos nutrientes individuais. Mas sabemos que a ingestão dietética não depende apenas um nutriente específico; ao invés disso, ela reflete padrões dietéticos mais amplos,” diz Barbey, que também é afiliado ao Instituto Beckeman para Ciência Avançada e Tecnologia, em Illinois.

Os pesquisadores descobriram que a inteligência geral estava associada com a rede cerebral de atenção dorsal, que desempenha um papel central em tarefas que demandam atenção e na solução de problemas do dia a dia. Em particular, os pesquisadores descobriram que a inteligência geral estava associada com o quão eficientemente a rede de atenção dorsal é organizada funcionalmente, algo que se mede por uma grandeza chamada de propensão a pequenos mundos, que descreve o quão bem a rede neural está conectada com regiões de agrupamentos locais, bem como através de sistemas integrados globalmente.

Eles descobriram que aqueles com maiores níveis de MUFAs em seu sangue possuíam maior propensão para pequenos mundos em sua rede de atenção dorsal. Analisados em conjunto com a correlação observada entre os altos níveis de MUFAs e maior inteligência geral, essas descobertas sugerem um caminho pelo qual os MUFAs afetam a cognição.

“Nossas descobertas fornecem novas evidências de que MUFAs estão relacionadas a um rede cerebral muito específica, a rede dorsal de atenção, e com o quão ótima é a organização funcional dessa rede,” disse Barbey. “Nossos resultados sugerem que se desejamos entender a relação entre MUFAs e a inteligência geral, necessitamos levar a rede dorsal de atenção em consideração. Ela é parte do mecanismo básico que contribui para sua relação.”

Barbey espera que essas descobertas irão guiar futuras pesquisas sobre como a nutrição afeta a cognição e a inteligência. Em particular, a próxima etapa é executar um estudo intervencional ao longo do tempo para ver se a ingestão de MUFA a longo prazo influencia a organização da rede cerebral e a inteligência.

“Nossa habilidade de relacionar esses efeitos cognitivos benéficos a propriedades específicas na rede cerebral é excitante,” disse Barbey. “Isso nos dá evidência do mecanismo pelo qual a nutrição afeta a inteligência e motiva novas direções promissoras para pesquisa futura em neurociência cognitiva nutricional.”



Referências:

Marta K. Zamroziewicz, M. Tanveer Talukdar, Chris E. Zwilling, Aron K. Barbey. Nutritional status, brain network organization, and general intelligence. NeuroImage, 2017; 161: 241 DOI: 10.1016/j.neuroimage.2017.08.043

sábado, 26 de agosto de 2017

Muito além da genética! O que os peixes de aquário têm a nos ensinar sobre as diferenças entre espécies

Segundo Craig Albertson, da Universidade de Massachusetts, é uma frustração para os biólogos evolucionistas o fato de que a genética é capaz de explicar apenas uma pequena porcentagem nas variações em características físicas dos organismos.

Albertson estudou ciclídeos africanos ao longo de 20 anos com o objetivo de desvendar como a biodiversidade se origina e como é mantida. Seu foco estava na contribuição genética para as diferenças entre as espécies. Juntamente com um Yianan Hu, que fora seu aluno de doutorado, examinou um comportamento muito intricado na fase larval que se inicia imediatamente após a cartilagem da mandíbula inferior se formar, mas antes que comece a deposição de osso. Os resultados foram publicados na Proceedings of the Royal Society B.

"Fizemos a previsão de que os filhotes de peixe estão exercitando os músculos de suas mandíbulas, o que impõe forças sobre os ossos aos quais eles estão ligados, forças que devem estimular a formação de osso", explica Albertson. Os pesquisadores observaram que a frequência do movimento de abrir e fechar a boca, que poderia alcançar 200 repetições por minuto, variava de uma espécie para outra.

"Por mais de cem anos temos sido ensinados que a habilidade de um sistema evoluir depende grandemente da quantidade de variação genética que se observa para uma dada característica. O que é ignorado, ou não notado para muitas características, é que menos de 50% da variação genética pode tipicamente ser explicada pela genética." E Albertson complementa, "Variações na forma do crânio são altamente herdáveis, e assim por que somente podemos encontrar variabilidade genética que explica apenas essa pequena quantidade de variabilidade no desenvolvimento dos ossos? Em nosso laboratório, passamos de tentar elaborar nossos modelos genéticos para olhar mais atentamente para a interação entre genética e meio ambiente."

A influência do ambiente no desenvolvimento é conhecida como epigenética. O termo foi cunhado nos anos 1940 para se referir a qualquer coisa não codificada na sequência de nucleotídeos. Essa definição estreitou-se para se referir a como a estrutura 3D da molécula de DNA é modificada. Albertson alerta que esse significado é correto, mas não é o único possível, e que seu trabalho remete à definição original.

"Os ossos não estão se formando sobre partes estáticas de tecido. Ao invés disso, eles estão se desenvolvendo como parte de, e talvez em resposta a um sistema altamente complexo e dinâmico." O fato de que as espécies diferem na taxa de movimento bucal levou os pesquisadores a testar a ideia de que diferenças no desenvolvimento dos ossos poderiam ser explicadas pela variação nesse comportamento. "Realizamos experimentos para ver se poderíamos desacelerar a taxa em espécies de rápido movimento bucal e acelerá-la em espécies de movimento lento, e para verificar se essa manipulação comportamental poderia influenciar o desenvolvimento dos ossos de maneira previsível."

Os experimentos funcionaram bem, mas o que foi mais surpreendente foi o fato de que as diferenças na morfologia do esqueleto induzidas por essas simples mudanças de comportamento eram similares àquelas atribuídas a fatores genéticos. Segundo Albertson, "O que eu achei realmente excitante é que em 15 anos manipulando a genética do desenvolvimento dos ossos craniofaciais nós fomos capazes de explicar apenas 20% da variabilidade, o que é modesto. Quando manipulamos o comportamento do movimento bucal, podemos influenciar a variabilidade por desenvolvimento por cerca de 15%, o que é comparável, quase igual à resposta genética."

"Quando eu falo em palestras, isso é o que mais surpreende meus colegas, que o efeito ambiental equipara-se ao efeito genético, e que isso não é sistêmico, mas altamente específico para ossos importantes envolvidos na alimentação dos peixes."

O próximo passo em seu laboratório é descobrir como o estímulo ambiental influencia o desenvolvimento. Para Albertson, "agora precisamos entender como as células ósseas percebem e respondem ao seu ambiente mecânico. Quais são as moléculas que permitem essa percepção mecânica?"

Os pesquisadores já demonstraram que mudanças induzidas por carga mecânica no desenvolvimento do esqueleto estão associadas com diferenças na expressão do gene ptch 1, que foi apontado previamente na mediação de diferenças na forma do esqueleto entre espécies. "Que a mesma molécula esteja envolvida em percepção mecânica dentro da mesma espécie e em divergência genética entre as espécies é algo formidável, uma vez que isso é consistente com a teoria evolucionária," diz Albertson.

A ideia é que quando animais de uma população são expostos a um novo ambiente, certas moléculas os habilitarão a responder de modo a tornear seus corpos para enfrentar os novos desafios. Se o novo ambiente é estável, a seleção natural deveria favorecer mutações com essas moléculas que fixariam a resposta inicialmente transitória. Esta teoria estabelece uma base para as etapas iniciais na divergência entre as espécies.


Adaptado de: "Baby fish exercising, a surprise source of adaptative variation in fish jaws"


Nota:

O estudo leva à antecipação de que quando uma população de animais enfrenta mudanças em seu ambiente, entra em atuação um mecanismo já embutido em seu organismo que permite que eles mudem de forma de modo a se adaptar às novas exigências, nada tendo a ver com seleção natural. Albertson, um geneticista sem dúvida muito competente, interpretou essa observação dentro da estrutura conceitual com que está familiarizado, ou seja, o evolucionismo. Aos meus modestos olhos, essa observação se encaixa perfeitamente a uma visão de mundo criacionista, segundo a qual tipos básicos de animais (não espécies) foram criados com capacidade inata de mudar de forma e se adaptar ao ambiente (mas isso dentro de certos limites). Um Criador que pudesse antecipar os desafios com que suas criaturas se deparariam provavelmente iria dotá-las da capacidade de enfrentá-los. A habilidade pré-programada de mudar de forma para se conformar com o ambiente, sem a necessidade de esperar até que as mutações certas surgissem e fossem selecionadas, parece alinhar-se bem com essa visão. Isso não significa que a seleção natural seja rejeitada por criacionistas. Muito pelo contrário. Com já foi explicado aqui, Edward Blyth, um criacionista do século XIX, figurou entre aqueles que propuseram o conceito de seleção natural antes de Darwin. Evolucionistas e criacionistas divergem apenas quanto à extensão a que a seleção natural pode levar. Para os primeiros, ela é capaz de transformar um organismo unicelular primitivo em um ser humano, dado tempo suficiente. Para os últimos, pode fazer parte dos mecanismos responsáveis pelas variações dentro de gêneros e até de famílias. Diga-se de passagem, as variações que podem ser induzidas em laboratório ou observadas na natureza se alinham melhor com essa última visão. O mesmo se pode dizer do registro fóssil, como o próprio biólogo evolucionista Stephen Jay Gould notou (não para defender o criacionismo, obviamente, mas para justificar sua teoria do equilíbrio pontuado).

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Moléculas orgânicas preservadas em plantas fossilizadas são usadas para classificação biológica


Ginkgo biloba fossilizado
O sequenciamento genético é a base primária para se entender as relações entre as plantas que existem hoje. Isso não é possível em plantas fossilizadas, uma vez que nelas o DNA não se encontra preservado (exceto por alguns fragmentos relatados para exemplares com idades estimadas em até 1 milhão de anos, segundo a cronologia tradicional). Entretanto, plantas fossilizadas de supostas dezenas de milhões de anos contêm uma variedade de outras moléculas orgânicas preservadas, e foi com base nessas moléculas que um grupo de pesquisadores tentou estabelecer relações entre elas.

A cutícula é uma camada de cera protetora que reveste a epiderme das folhas de quase todas as plantas vasculares modernas. Entre suas funções está a proteção contra desidratação, ataques por insetos e luz ultravioleta. Dentre os materiais biológicos que são preservados nos fósseis de plantas, a cutícula está entre os que apresentam componentes químicos com menor alteração pelos processos resultantes do soterramento e diagênese térmica. As cutículas são constituídas majoritariamente de uma membrana insolúvel de lipídios, o que significa dizer que são relativamente impermeáveis a água e gases.

Primeiramente, os pesquisadores usaram espectroscopia no infravermelho para analisar o material das cutículas de plantas vivas que possuem correspondentes no registro fóssil. As análises espectroscópicas foram combinadas com uma técnica matemática conhecida por análise de agrupamento hierárquico, que permite agrupar os indivíduos de uma amostra com base em um conjunto de características (neste caso, seus espectros de infravermelho). Eles perceberam que o agrupamento fornecido pelo seu método correspondia exatamente à classificação biológica obtida a partir do sequenciamento do DNA.

Uma vez estabelecido que o método funcionava para plantas vivas, passou-se para a análise das plantas fossilizadas. Entre as plantas estudadas, estavam coníferas e algumas espécies de Ginkgo. Durante o jurássico, o gênero Ginkgo era muito diverso, mas hoje resta somente uma espécie, o Ginkgo biloba. Os pesquisadores coletaram folhas fossilizadas em rochas na Suécia, na Austrália, na Nova Zelândia e na Groelândia. As espécies fósseis extintas apresentaram muitas semelhanças com parentes modernas. Por exemplo, a figura 1 do artigo original (veja aqui) mostra o espectro de infravermelho para a Araucaria haatii (fóssil, do Cretáceo Superior) e da Araucaria bidwillii (encontrada nos dias de hoje). As diferenças na parte direita da figura 1 indicam a ausência de polissacarídeos (celulose e hemicelulose) na amostra fossilizada, provavelmente decompostos no processo de diagênese. A região à esquerda mostra a presença de compostos contendo alcenos e alcano alifáticos, tanto na amostra fóssil quanto na da planta atual.

Quando o método de análise de agrupamentos foi aplicado aos espectros de infravermelho das amostras fósseis, obteve-se um agrupamento semelhante ao observado para suas parentes modernas. Em outras palavras, as espécies de ginkgo extintas se agrupavam quimicamente, assim como as cicadófitas e as coníferas. Foi a primeira vez que plantas fossilizadas de dezenas de milhões de anos (segundo a cronologia evolucionista) foram classificadas com segurança de acordo com suas assinaturas químicas.

No que se refere à questão da origem da vida, chama a atenção aqui a alegada preservação de moléculas orgânicas por um período de tempo tão extenso. Estamos falando de algo próximo a 200 milhões de anos! Moléculas orgânicas são muito frágeis. Em um laboratório de pesquisa, é comum que os compostos sintetizados ao longo de um trabalho sejam armazenados a baixas temperaturas para evitar degradação. Boa parte dos reagentes químicos é estocada em frascos âmbar para diminuir as chances de reações iniciadas por luz e são mantidos bem fechados para evitar o contato com oxigênio e umidade. Mesmos assim, os reagentes químicos possuem prazos de validade e, após alguns meses ou anos, apresentam alterações. É realmente muito difícil aceitar a proposta de que alcenos tenham permanecido quase intactos por milhões e milhões de anos. Não seria a presença dessas moléculas evidência de que a fossilização foi bem mais recente do que normalmente se aceita? Afinal, a fossilização, particularmente a de plantas, é um evento relativamente rápido, contado em períodos de anos e décadas (confira aqui).


Referências

V, Vajda, M. Pucetaite, S. McLoughlin, A. Engdahl, J. Heimdal, P. Uvdal, Molecular signatures of fossil leaves provide unexpected evidence for extint plant relatioship, Nature Ecology & Evolution, vol 1, p. 1093-1099, 2017.

Lund University News and Press Releases, Through fossil leaves, a spet towards Jurassic Park, (http://www.lunduniversity.lu.se/article/through-fossil-leaves-a-step-towards-jurassic-park), acessado em 16 de agosto de 2017.

domingo, 5 de março de 2017

Olhando de perto um ícone da evolução



O rato veadeiro (Peromyscus maniculatus) é um dos mamíferos mais comuns da América do Norte. Normalmente ele possui uma pelagem escura, que o ajuda a se camuflar em solos também escuros, evitando que seja alvo de corujas e falcões. Entretanto, quando vamos para as colinas arenosas de Nebraska, que possuem cor clara, os ratos veadeiros passar a ser predominante de uma cor parecida com a da areia.[1]

Um grupo de pesquisadores fabricou ratos de plastilina (um material especial para moldagem) com colorações claras e escuras e os expuseram aos predadores comuns de Nebraska.[2] Como esperado, os modelos de coloração escura eram atacados com muito mais frequência do que os de coloração clara. Os pesquisadores concluíram, corretamente, que os ratos de coloração clara possuíam uma grande vantagem seletiva naquela região. Esse trabalho foi divulgado mídia afora como mais uma forte evidência a favor da teoria da evolução. [3] Mas vejamos os fatos.

Células especiais nesses ratos fabricam dois tipos de pigmentos, a eumelanina, de cor marrom, e a feomelanina, de uma espécie de dourado mais claro. Um único gene, chamado de Agouti, regula as quantidades em que esses pigmentos são produzidos. Os ratos de cor clara possuem uma versão mutante desse gene, o que faz com que a proteína que ele produz contenha um aminoácido a menos. Essa pequena mudança provoca um desarranjo que diminui a produção de eumelanina (escuro) e aumenta a de feomelanina (claro).[4] Estudos genéticos complementares encontraram outras mutações nesse mesmo gene que ajudam a deixar a coloração dos ratos ainda mais similar à da areia.[2]

Precisamos ter muito cuidado, todavia, ao igualar seleção natural a evolução. Como já foi dito aqui, os criacionistas não têm problemas com o conceito de seleção natural. O problema é com as extrapolações injustificadas que são feitas a partir de histórias como a do rato veadeiro.

Os ratos já possuíam toda a maquinaria molecular para a produção tanto do pigmento claro como do escuro. Um defeito na regulagem da produção fez com que o pigmento claro fosse produzido em maior quantidade do que o escuro em alguns animais, o que acabou sendo uma vantagem para os que viviam sobre areias claras. O que existe de realmente novo aqui? Absolutamente nada! Deletamos um aminoácido de uma proteína, que por isso passou a não fazer seu trabalho direito. Por sorte, esse defeito acabou sendo benéfico para os ratos naquela região.

Quando os criacionistas contestam o poder da seleção natural, isso não diz respeito ao tipo de situação descrita acima. Estamos falando da capacidade da seleção natural para a produção da complexa maquinaria molecular responsável pela manutenção da vida no interior das células. Mais ainda, estamos falando da capacidade da seleção natural em transformar um micróbio em um ser humano. Não temos qualquer evidência de coisas desse tipo, apenas de casos como o do rato veadeiro.


Referências


1 Catchpoole, D., Nebraska deer mice, evolutions latest ‘icon’?, Creation 38(2): 44-45, 2016.

2 Linnen, C.R., Poh, Y.-P., Peterson, B., Barrett, R., Larson, J., Jensen, J., Hoekstra, H., Adaptive evolution of multiple traits through multiple mutations at a single gene, Science 339(6125):1312-1316, 2013.

3 Walker, M., Mouse set to be ‘evolution icon’, bbc.co.uk, 27 August 2009.

4 Linnen, C., Kingsley, E., Jensen, J., and Hoekstra, H., On the origin and spread of an adaptive allele in deer mice, Science 325(5944):1095–1098, 2009.

domingo, 29 de janeiro de 2017

O Prêmio Nobel de Química e a evidência de um Designer

O Prêmio Nobel de Química de 2016 foi concedido a Jean-Pierre Sauvage, Sir J. Fraser Stoddart e Bernard L. Feringa “pelo design e síntese de máquinas moleculares”.[1] O trabalho desses pesquisadores é realmente muito interessante. Você já parou para se perguntar o quão pequena pode ser uma máquina? Imagine um computador de apenas 2 mm! Pois bem, isso já existe. Trata-se do Michigan Micro Mote (M3), desenvolvido por pesquisadores da Universidade de Michigan. [2] O M3 é um sistema de computação completo, sendo capaz de receber dados, processar esses dados, tomar decisões e produzir dados de saída. Parece realmente incrível, mas o que os ganhadores do Nobel de Química de 2016 fizeram vai muito além. Por exemplo, Stoddart e sua equipe, em 1991, desenvolveram um rotaxano. [3] Para isso, Stoddart coordenou a criação de uma molécula longa, na forma de um eixo, e a inseriu em uma outra molécula em forma de anel. Mudando o ambiente químico, os pesquisadores podiam fazer o anel se mover ao longo do eixo, da mesma forma como um trem se move sobre seus trilhos. Mas o movimento era de certa forma bem restrito, como se o trem pudesse ir e voltar apenas entre duas estações.

Em 1999, Feringa e seu grupo publicaram um trabalho no qual descrevem a rotação controlada de uma molécula. [4] O movimento molecular é, por natureza, caótico. As moléculas transladam e realizam rotações em direções aleatórias. Feringa, no entanto, utilizou-se de técnicas bastante sofisticadas para fazer com que uma parte da uma molécula girasse em relação à outra parte em uma direção definida e de forma controlada. Para isso, foi necessário realizar um procedimento que envolvia resfriamento a -55 oC, seguido de irradiação com luz de comprimentos de onda bem específicos e aquecimentos em etapas controladas. Embora os pesquisadores tenham mostrado que esse tipo de movimento é possível, a forma como isso foi alcançado não é nada prática.

Um outro tipo de máquina molecular descoberta há alguns anos realiza tarefas fantásticas. Essa máquina possui um compartimento capaz de armazenar algum tipo de material para transporte e um sistema de tração que a faz se movimentar em uma direção definida. Essa maquina trabalha de forma integrada com outras e é capaz de receber sua carga, caminhar sobre um filamento e entregar a carga em seu destino. O mais impressionante é que ela faz tudo isso sem intervenção externa, ao contrário das máquinas de Sauvage, Stoddart e Feringa. Mas se não bastasse isso, existe também uma linha de montagem para essa maquina, com um rigoroso controle de qualidade. Cada parte dessa linha de montagem é composta por outras máquinas moleculares bastante complexas. Essas máquinas são capazes de acessar o banco de dados com o projeto para a construção, selecionar os materiais certos, executar a montagem em uma sequência coerente e realizar um controle de qualidade em cada etapa. A própria linha de montagem está sujeita a um protocolo de controle que determina quando uma máquina molecular deve ser produzida, ou seja, a produção se dá de acordo com a demanda. Comparar essa máquina de transporte e o seu sistema de montagem com as máquinas de Sauvage, Stoddart e Feringa é como comparar um chocalho de criança às últimas gerações de smatphones. Mas então por que o Prêmio Nobel de Química foi outorgado a esses pesquisadores e não ao inventor dessa máquina de transporte?

Essa máquina de transporte é chamada de cinesina, é encontrada no interior das células e têm a função de transportar as proteínas recém preparadas até o local onde elas são necessárias. A linha de montagem é todo o aparato celular para a síntese de proteínas. Tudo funciona como numa fábrica com tecnologia sofisticadíssima, com procedimentos automatizados, mini robôs programados para executar funções bastante especializadas e softwares extremamente eficientes. Mas pasmem! Enquanto a Academia de Ciências concede um Prêmio Nobel aos brinquedos de Sauvage, Stoddart e Feringa, em reconhecimento ao seu árduo trabalho de planejamento e síntese, um grupo de pretensos cientistas alega que toda a maquinaria celular surgiu completamente ao acaso!
Os ganhadores do Prêmio Nobel de Química de 2016 não foram, nem de longe, os inventores dos motores moleculares. São imitadores de algo que já está aí desde o princípio. Se algo tão simples como uma molécula que pode se mover em uma direção merece um Prêmio Nobel, que tipo de reconhecimento daríamos ao Projetista das cinesinas e do flagelo bacteriano, obras primas químicas inigualáveis? Um interruptor ou um rotor (tal como os de Sauvage, Stoddart e Feringa) precisa de um projetista e de uma hábil equipe para sua construção, que tenha à sua disposição compostos químicos muito específicos e caros e equipamentos bastante sofisticados. Mas quando nos deparamos com a cinesina, aí tudo muda. Ela simplesmente surgiu de processos aleatórios, não teve um Projetista e nem um Criador. Isso porque já estamos nos referindo ao produto final, sem sequer levar em consideração que as máquinas biológicas se montam sozinhas. Não precisam de nossa interferência.

Quando Paley apresentou seu argumento em meados do século XIX, os críticos do planejamento o acusaram de tecer uma analogia entre coisas muito diferentes. Não se poderia comparar o corpo humano com as máquinas construídas pelo homem, diziam eles. Numa época em que quase nada se sabia sobre a vida no nível subcelular, essa objeção poderia até ser razoável. Todavia, os avanços recentes da bioquímica e da química têm mostrado que a correspondência entre as máquinas produzidas pelo homem e os sistemas encontrados no interior das células é muito mais forte do que se imaginava a princípio. E mais do que isso, que a tecnologia molecular do interior das células deixa nossos melhores esforços no chinelo. Até quando vamos continuar fechando os olhos para o fato óbvio de que há uma Mente Inteligente por trás de tudo isso? Só não conseguem aceitar isso aqueles que fizeram um pacto não científico com a filosofia materialista. Como diz um ditado popular, o pior tipo de cego é aquele que não quer ver.

Referências:
[1] Press Release: The Nobel Prize in Chemistry 2016, https://www.nobelprize.org/nobel_prizes/chemistry/laureates/2016/press.html.
[2] Michigan Micro Mote (M3) Makes History, http://www.eecs.umich.edu/eecs/about/articles/2015/Worlds-Smallest-Computer-Michigan-Micro-Mote.html.
[3] P.L.Anelli,N.Spencer,J.F.Stoddart,J.Am.Chem.Soc.1991, 113,5131–5133.
[4] N. Koumura, R. W. J. Zijlstra, R. A. van Delden, N. Harada, B. L. Feringa, Nature, 401, 152-155.