sábado, 28 de janeiro de 2017

Gene chave no desenvolvimento da doença celíaca foi encontrado no DNA “lixo”



40% da população carrega o principal fator de risco para a doença celíaca, mas somente 1% acaba por desenvolvê-la. Um novo gene que influencia seu desenvolvimento foi encontrado naquilo que até recentemente era conhecido como DNA “lixo”. A pesquisa, da qual um grupo da UPV/EHU participou, foi publicada na Science.

A doença celíaca é uma doença imunológica crônica que se manifesta como intolerância a proteínas de glúten presentes no trigo, no centeio e na cevada. Essa intolerância leva a uma reação inflamatória no intestino delgado que dificulta a absorção de nutrientes. O único tratamento é uma dieta livre de glúten por toda a vida.

Sabe-se há algum tempo que a doença celíaca se desenvolve em pessoas que possuem uma suscetibilidade genética, mas a despeito do fato de que 40% da população carrega o fator de risco mais decisivo (os polimorfismos HLA-DQ2 e DQ8), somente 1% acaba desenvolvendo a doença. “O que temos aqui é uma complexa doença genética na qual muitos polimorfirmos desempenham um papel, cada um fazendo uma pequena contribuição para seu desenvolvimento,” explica a pesquisadora do UPV/EHU Ainara Castellanos, que liderou o trabalho publicado na Science.

Um dos fatores de risco adicionais deve ser encontrado, de acordo com essa pesquisa, no chamado DNA “lixo”; em outras palavras, em 95% do DNA. Esta é a parte menos conhecida porque, ao contrário dos outros 5%, ela não está envolvida na síntese de proteínas. Contudo, tem-se lançado luz gradualmente sobre seu papel no controle do funcionamento geral do genoma. Em outras palavras, ela regula processos importantes em nosso organismo, tais como a resposta imune, e é lá que deve ser possível encontrar as causas de doenças autoimunes como a doença celíaca.

Um gene chave no controle de respostas inflamatórias observadas em pacientes celíacos foi encontrado em uma das regiões do genoma lixo: trata-se do 1nc13. O ácido ribonucleico produzido por esse gene pertence à família de RNAs longos e não codificadores, ou lncRNA, e é responsável por manter os níveis normais de expressão de genes pró-inflamatórios. Em celíacos, esse RNA não-codificante dificilmente é produzido e assim os níveis desses genes inflamatórios não são propriamente regulados e sua expressão é aumentada. Mas além de ser produzido em pequenas quantidades, o 1nc13 produzido pelos pacientes celíacos possui uma variante que altera sua maneira de funcionar. “Dessa forma, um ambiente inflamatório é criado e o desenvolvimento da doença é encorajado,” disse Ainara Castellanos.

“Este estudo confirma a importância de regiões do genoma previamente consideradas como 'lixo' no desenvolvimento de queixas comuns como a doença celíaca e abre a porta de uma nova possibilidade para o diagnóstico. Exatamente agora, estamos interessados em descobrir se os baixos níveis deste RNA são uma característica inicial da doença celíaca (e outras doenças imunes), que poderiam ser usados como uma ferramenta de diagnóstico antes de sua instalação,” explicou o professor de Genética da UPV/EHU José Ramón Bilbao, outro autor do trabalho.


Referências:
Ainara Castellanos-Rubio, Nora Fernandez-Jimenez, Radomir Kratchmarov, Xiaobing Luo, Govind Bhagat, Peter H. R. Green, Robert Schneider, Megerditch Kiledjian, Jose Ramon Bilbao, Sankar Ghosh. A long noncoding RNA that is associated with susceptibility to celiac disease. Science, 2016; 352 (6281): 91. DOI: 10.1126/science.aad0467.

Fonte: University of the Basque Country (traduzido por R. M. Pontes)

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