sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Uma visão bíblica do vegetarianismo

Sou vegetariano há 8 anos. As pessoas que conheço frequentemente fazem algum tipo de associação entre meu estilo de vida e a denominação religiosa da qual faço parte, a Igreja Adventista do Sétimo Dia. Mas essa associação nem sempre é estabelecida da forma correta. Para ser mais claro, já ouvi muitas vezes coisas do tipo “a sua religião não permite”, “é por motivos religiosos” etc. Que fique bem claro: trata-se de uma decisão racional e cuidadosamente amadurecida ao longo de vários anos.

No próprio mundo cristão as pessoas que adotam uma postura similar à minha acabam sendo rotuladas de legalistas. Muitos supõem que não entendemos a graça oferecida por Deus e buscamos obter salvação por meio de obras. Outro equívoco grave. A fim de esclarecer a base teológica para a minha opção pelo vegetarianismo, decidi reunir alguns argumentos e explica-los aqui.

Oséias 4:6 traz um triste lamento:

O meu povo está sendo destruído, porque lhe falta o conhecimento. Porque tu, sacerdote, rejeitaste o conhecimento, também eu te rejeitarei, para que não sejas sacerdote diante de mim; visto que te esqueceste da lei do teu Deus, também eu me esquecerei de teus filhos” (Os 4:6).

Não é minha intenção escrever um texto curto, para uma leitura superficial de cinco minutos. Esse assunto merece mais do que isso. Se você sinceramente procura uma compreensão melhor sobre o tema e está disposto a dedicar tempo proporcional à seriedade que ele exige, os parágrafos seguintes podem ajuda-lo.


1. UM PRINCÍPIO FUNDAMENTAL

As recomendações bíblicas quanto à alimentação são um tema controverso há muito tempo. Grande parte do mundo cristão aceita a ideia popular de que o que comemos ou bebemos é de pouca ou nenhuma importância para Deus. Isso se deve, parcialmente, a uma compreensão equivocada sobre as verdadeiras razões das restrições alimentares mencionadas na Bíblia. A legislação brasileira, por exemplo, proíbe a direção após o consumo de bebidas alcoólicas. Por quê? É muito óbvio. Qualquer pessoa que já tenha testemunhado as ações de alguém sob efeito da bebida sabe que a capacidade de raciocínio fica profundamente comprometida. Você confiaria sua vida nas mãos de um piloto de avião ou de um motorista de ônibus embriagado? Você acha que um médico que bebeu uma garrafa de whisky até a última gota está apto a fazer uma cirurgia cerebral no seu filho? Esses exemplos ilustram o fato de que as substâncias que ingerimos podem influenciar, em maior ou em menor grau, nosso julgamento. E esse é o ponto central da questão, pois nosso relacionamento com Deus depende profundamente de nossa capacidade de discernimento.

Vejamos o que a Bíblia diz quando fala de bebida alcoólica:

“Não olhes para o vinho, quando se mostra vermelho, quando resplandece no copo e se escoa suavemente. Pois ao cabo morderá como a cobra e picará como o basilisco. Os teus olhos verão coisas esquisitas, e o teu coração falará perversidades. Serás como o que se deita no meio do mar e como o que se deita no alto do mastro e dirás: espancaram-me, e não me doeu; bateram-me, e não o senti; quando despertarei? Então tornarei a beber” (Pv 23:31-35).

“Não olhes para o vinho”, eis a orientação bíblica. O texto diz “serás como o que se deita no meio do mar”. Quem, em sã consciência, se deita no meio do mar? Embora não seja meu objetivo aqui discorrer sobre o uso de vinho ao longo da Bíblia, ela é clara ao nos ensinar, como sabemos por experiência prática, que as bebidas alcoólicas afetam nossa razão. Mas e daí, Deus se importará se minha capacidade de raciocínio for afetada?

O Seu convite é “vinde, pois, e arrazoemos, diz o Senhor” (Is 1:18). Deus espera de Seus filhos decisões racionais e maduras, e isso só é possível se estivermos em condições de compreender claramente Sua Palavra. Por meio de Paulo, Ele reforça essa ideia:

“Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresentei o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é vosso culto racional” (Rm 12:1).

“Ora, estes de Bereia eram mais nobres que os de Tessalônica; pois receberam a palavra com toda a avidez, examinando as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de fato, assim” (At 17:11).

Deus deseja que arrazoemos com ele, por meio do estudo de Sua Palavra e da oração. Como fazer isso com nossa mente entorpecida por substâncias que comprometem nosso raciocínio?

Embora a Bíblia possua muitos outros textos de advertência contra a bebida alcoólica, creio que a ideia básica tenha ficada clara apenas com o que mencionamos acima. Mas o que dizer do uso de drogas como a cocaína ou o crack. Nenhuma dessas drogas é mencionada na Bíblia. Então, pelo fato de não encontrarmos declarações explícitas do tipo “o uso da cocaína é proibido” podemos usá-la sem nenhum problema? Essa seria uma visão muito estreita sobre as orientações da Palavra de Deus. A Bíblia apresenta um princípio fundamental sobre o assunto, isto é, que nossas faculdades intelectuais devem ser conservadas saudáveis para que sejamos capazes de compreender o que Deus quer nos ensinar. Então, qualquer coisa que cause dano à nossa capacidade de raciocínio deve ser evitada, e isso inclui não apenas cocaína e crack, mas qualquer nova droga entorpecente que venha a surgir.

Jesus disse que uma das obras do Espírito Santo é convencer o mundo do pecado (Jo 16:8). Será que Ele, o Espírito Santo, simplesmente muda nossa opinião num simples estalar de dedos? Ou será que Sua atuação se revela melhor naquilo que estavam experimentando os cristãos de Bereia, que ouviam Paulo e em seguida se dirigiam às Escrituras para conferir se o que ele dizia era mesmo verdade. O Espírito Santo atua em nossa mente, e é por isso que devemos mantê-la nas melhores condições. Paulo adverte:

“Não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o santuário de Deus, Deus o destruirá; porque o santuário de Deus, que sois vós, é sagrado” (1 Co 3:16,17).

Afinal de contas, por que Deus destruiria alguém que agride, de algum modo, o seu corpo? Ora, é o Espírito Santo quem nos convence do pecado (Jo 16:8), mas se nossa mente estiver tão entorpecida que não sejamos mais capazes de ouvir os Seus apelos, permaneceremos não convencidos do pecado. É só uma questão de lógica. Em outras palavras, seguiremos nosso curso de pecados sem nos importar com isso. Sabemos que Deus não leva em conta os tempos de ignorância (At 17:30), que compreende melhor do que ninguém cada caso. Mas existe grande perigo em deliberadamente colocar-se em uma posição que você sabe ser contrária à vontade de Deus.

O que fazemos com o nosso corpo tem profundas implicações espirituais, e Paulo novamente nos adverte do cuidado que Deus exige:

“Acaso, não sabeis que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo, que está em vós, o qual tendes da parte de Deus, e que não sois de vós mesmos?” (1 Co 6:19).

Sabemos, portanto, que álcool e drogas afetam nosso cérebro, e por consequência nossa capacidade de raciocínio. É por isso devemos evita-los. Mas o que dizer dos alimentos que ingerimos, teriam eles alguma influência sobre nossa espiritualidade? Vejamos.


2. A SEPARAÇÃO ENTRE ANIMAIS PUROS E IMUNDOS

À luz de 1 Co 6:19, vamos retornar ao Antigo Testamento, na ocasião em que Deus proibiu os israelitas de comerem determinados tipos de carne. Afinal de contas, que diferença faria comer ou não comer carne de camelo, de cavalo ou de porco (Lv 11)? Os israelitas receberam de Deus um conjunto de leis que podem ser classificadas como: 1) Moral; 2) Cerimonial; 3) Civil; e 4) Saúde (NICHOL; DORNELES, 2011, p. 818; KNIGHT, 2008, p. 423). As leis cerimoniais – que incluíam, por exemplo, os sacrifícios de animais – tinham a função de ensinar aos israelitas o plano da redenção, ou seja, apontavam para a obra redentora de Cristo e, especialmente, para o Seu sacrifício expiatório. Essas cerimônias perderam seu propósito após o Calvário e não mais deveriam ser observadas. As leis civis estavam associadas à cultura do povo de Israel e de outros povos da antiguidade. Muito embora possamos extrair os princípios essenciais contidos nessas leis e aplicá-los ainda hoje, suas orientações específicas eram adequadas apenas para a cultura daquela época. A lei moral, os Dez Mandamentos, é a expressão do caráter de Deus. Embora se argumente em alguns círculos cristãos que Jesus teria abolido também essa lei em sua crucifixão, um estudo a fundo da Bíblia revela a fragilidade e incoerência dessa alegação. De fato, as denominações cristãs mais tradicionais não apoiam essa tese, ficando a controvérsia restrita ao quarto mandamento, ou seja, o dia de guarda. Mas e quanto às leis de saúde, teriam sido abolidas na cruz? Nas palavras de um conhecido jornalista cristão, “Jesus morreu para perdoar pecados, não para purificar porcos”. Qualquer alimento que não era saudável nos tempos do Antigo Testamento continua não sendo saudável nos dias de hoje.

As orientações quanto aos tipos de carne que poderiam servir de alimento fazem parte das leis de saúde, não possuindo qualquer significado civil ou cerimonial. Portanto, se a carne de porco era inadequada para um israelita naqueles tempos, continua sendo inadequada para nós ainda hoje. Não é nenhuma novidade que o consumo e a produção desse tipo de carne é a fonte de diversos tipos de doenças em nosso tempo. Obviamente, Deus não nos deseja doentes e incapacitados, não apenas pelo nosso sofrimento físico, mas por causa dos efeitos que isso pode ter em nosso discernimento e em nosso relacionamento com Ele. Nos tempos do Antigo Testamento, Deus não poderia explicar aos israelitas os males que adviriam do consumo de certos tipos de carne, e então apenas as chamou de “impuras”.

Jesus morreu para o perdão dos nossos pecados, não para matar os vermes do porco.  A cisticercose não dá a mínima para a alegação popular “mas isso está no Antigo Testamento!”. É uma lei da natureza que se usamos alimentos impróprios para o consumo iremos sofrer as consequências (doenças). Os israelitas eram proibidos de utilizar a gordura animal como alimento (Lv 7:23,24). Por acaso a gordura animal se tornou um alimento saudável depois da cruz? O que diz o seu cardiologista?

Infelizmente, grande parte do mundo cristão prefere rotular os defensores das leis de saúde de legalistas e usar, erroneamente, alimentos que nunca deveriam estar em nossas mesas. As consequências são devastadoras. Câncer, Alzheimer, AVC, infarto e morte. Frequentemente, quando alguém é acometido por um câncer, olha para Deus e pergunta: “por quê? O que eu fiz para merecer isso?”. Ou, como dizem os ateus: “se um Deus amoroso realmente existisse, Ele não permitiria as doenças que trazem tanto sofrimento”. Deus nos deixou todas as orientações para que não viéssemos a experimentar essas doenças e, mesmo que fôssemos pegos ocasionalmente, estivéssemos aptos a nos recuperar com mais facilidade.

Quando levo meu veículo para a troca de óleo, o funcionário da empresa me pergunta o modelo e o ano de produção para poder providenciar o óleo lubrificante que o fabricante recomenda. O que você acha que ocorreria se, no lugar do óleo lubrificante correto para o motor eu utilizasse óleo de soja comprado no mercadinho da esquina. Seria uma catástrofe para o motor! Seria a culpa pelo estrago no motor do fabricante, que me deu as instruções sobre como manter a máquina funcionando corretamente, ou seria minha por ter utilizado o óleo inapropriado? Pois o mesmo ocorre com nosso corpo. Ele foi projetado para funcionar em seu melhor com determinado tipo de alimento, e o fabricante, Deus, nos deixou um manual de instruções sobre como cuidar dele. Se, deliberadamente, escolhemos ignorar o manual de instruções e utilizar alimento inapropriado, os defeitos (doenças) vão inevitavelmente surgir. É uma questão de causa e efeito. A escolha é sua.


3. O ALIMENTO ORIGINAL

 Mas vamos regredir ainda mais no tempo. A pergunta agora seria: qual foi a alimentação original dada por Deus ao ser humano? Ele foi muito claro ao nos dizer o tipo de alimento para o qual fomos criados: “E disse Deus ainda: eis que vos tenho dado todas as ervas que dão semente e se acham na superfície de toda a terra e todas as árvores em que há fruto que dê semente; isso vos será para mantimento” (Gn 1:29). E quanto à alimentação dos animais: “E a todos os animais da terra, e a todas as aves dos céus, e a todos os répteis da terra, em que há fôlego de vida, toda a erva verde lhes será para mantimento” (Gn 1:30). Jamais esteve nos planos de Deus que suas criaturas se matassem e se devorassem. Ao homem foram dadas as frutas e as sementes; aos animais, ervas verdes. Em outras palavras, a dieta planejada por Deus para o ser humano foi a dieta vegetariana. Repito: dieta vegetariana!

Após a queda, um item foi adicionado à dieta do homem: “E tu comerás a erva do campo” (Gn 3:18). Deus, em sua onisciência, sabia que o caminho de transgressões que a humanidade estava começando a trilhar teria como resultado a degradação de suas faculdades físicas. Para entender a decisão de Deus ao adicionar as folhas à nossa dieta, vamos olhar para o prêmio Nobel de Medicina de 2015.  A chinesa Youyou Tu foi um dos ganhadores desse prêmio por seus trabalhos sobre o isolamento de substâncias biologicamente ativas de plantas. O mais famoso trabalho de Tu trata da planta Artemisia annua, Figura 1, da qual se isolou o princípio ativo atemisina, que é eficaz no tratamento da malária. A Artemisia annua possui, além disso, mais de 50 compostos fenólicos com atividade antioxidante (FERREIRA, 2010) que ajudam a prevenir uma série de doenças. Muitos medicamentos, ou precursores desses medicamentos, têm sido isolados a partir de plantas. De fato, Produtos Naturais é uma área de pesquisa bastante ativa em ciências como a química. As plantas contêm os “remédios” da natureza e isso é especialmente verdade quando falamos das folhas verdes. Em outras palavras, o acréscimo da “erva do campo” supriria nosso organismo com as substâncias necessárias para prevenir e remediar as enfermidades às quais estaríamos sujeitos.


Figura 1. Artemisia annua, planta da qual foi isolada a substância artemisinina, ativa no combate à malária (imagem: Jorge Ferreira).

Após o Dilúvio, quando toda a vegetação havia sido destruída, Deus permitiu que o homem usasse alimento de origem animal:

“Pavor e medo vos virão sobre todos os animais da terra e sobre todas as aves dos céus; tudo o que se move sobre a terra e todos os peixes do mar nas vossas mãos vos serão entregues. Tudo o que se move e vive ser-vos-á para alimento; como vos dei a erva verde, tudo vos dou agora” (Gn 9:2,3).

Essa declaração tem sido usada por muitos como a autorização divina para o consumo de carne. Mas se Deus havia sido claro quanto à dieta planejada para o ser humano (Gn 1:29), por que mudar agora? Imagine-se saindo da arca após as águas do Dilúvio retrocederem. Onde estão as árvores frutíferas ou os cereais? Haviam começado a crescer, mas um longo tempo ainda seria necessário até que as pequenas árvores pudessem produzir seus frutos. Nessa situação, por estar a vegetação devastada, Deus permitiu o consumo de carne. Não deveria ser essa, contudo, a solução definitiva. Dois fatos bíblicos servem de suporte para essa afirmação. Primeiramente, logo após o Dilúvio, o tempo de vida do ser humano começou a cair drasticamente, Figura 2. Sobre este tema, a escritora Ellen White comenta:

“Depois do dilúvio o povo comeu à vontade do alimento animal. Deus viu que os caminhos do homem eram corruptos, e que o mesmo estava disposto a exaltar-se orgulhosamente contra seu Criador, seguindo as inclinações de seu coração. E permitiu Ele que aquela raça de gente longeva comesse alimento animal, a fim de abreviar sua vida pecaminosa. Logo após o dilúvio o gênero humano começou a decrescer rapidamente em tamanho, e na extensão dos anos”. (WHITE, 2005, p. 373, grifo nosso)

Figura 2. Decréscimo do tempo de vida de personagens bíblicos com o ano de seu nascimento (formulado pelo autor a partir das genealogias bíblicas).

É evidente que houve também um choque ambiental que afetou a qualidade de vida. Mas não se pode negar que uma mudança tão drástica na alimentação tivesse profundos efeitos sobre o organismo.

Em segundo lugar, quando Deus resgatou o Seu povo do Egito, o alimento fornecido por Ele durante a tentativa de fazer daquele povo o Seu representante sobre a terra (Is 49) foi o maná, algo que lembraria um cereal:

“Ora, os filhos de Israel comeram o maná quarenta anos, até que chegaram a uma terra habitada; comeram o maná até que chegaram aos termos da terra de Canaã” (Ex 16:35).

O povo de Israel, no entanto, não se contentou com o alimento simples provido por Deus e reclamou:

“Ora, o vulgo que estava no meio deles veio a ter grande desejo; pelo que os filhos de Israel também tornaram a chorar, e disseram: Quem nos dará carne a comer?
Lembramo-nos dos peixes que no Egito comíamos de graça, e dos pepinos, dos melões, dos alhos silvestres, das cebolas e dos alhos. Mas agora a nossa alma se seca; coisa nenhuma há senão este maná diante dos nossos olhos” (Nm 11:4-6).

“E o povo falou contra Deus e contra Moisés: Por que nos fizeste subir do Egito, para que morramos nesse deserto, onde não há pão nem água? E a nossa alma tem fastio deste pão vil” (Nm 21:5).

Diante dessa murmuração, Deus forneceu-lhes abundante quantidade de carne, e morte como consequência do uso da mesma. A punição foi uma reprovação à rejeição pelos israelitas daquilo que Deus lhes estava oferecendo, o maná, e ao desejo de retornar ao Egito (como escravos!) para saborearem a carne que lá havia. Apesar de Números 11:4-6 mencionar melões, alhos silvestres e cebolas, a controvérsia central envolveu o alimento cárneo, como fica evidente pela resposta de Deus a Moisés e pelo teor da punição:

“Dizei ao povo: santificai-vos para amanhã e comereis carne; porquanto choraste aos ouvidos do Senhor, dizendo: Quem nos dará carne a comer? Íamos bem no Egito. Pelo que o Senhor, vos dará carne e comereis. Não comereis um dia, nem dois dias, nem cinco, nem dez, nem ainda vinte; mas um mês inteiro, até vos sair pelos narizes, até que vos enfastieis dela, porquanto rejeitastes o Senhor, que está no meio de vós, e chorastes diante dele, dizendo: Por que saímos do Egito?” (Nm 11:18-20).

“Então, soprou um vento do Senhor, e trouxe codornizes do mar, e as espalhou pelo arraial quase caminho de um dia, ao seu redor, cerca de dois côvados sobre a terra. Levantou-se o povo aquele dia, e a noite, e o outro dia e recolheu as codornizes; o que menos colheu teve dez ômeres; e as estenderam para si ao redor do arraial. Estava ainda a carne entre os seus dentes, antes que fosse mastigada, quando se ascendeu a ira do Senhor contra o povo, e o feriu com praga mui grande. Pelo que o nome daquele lugar se chamou Quibrote-Hataavá, porquanto ali enterraram o povo que teve o desejo das comidas dos egípcios” (Nm 11:31-43).

A alimentação simples apontada por Deus jamais foi aceita pelo povo de Israel. A predisposição para rejeitar as orientações divinas, inicialmente na forma das leis naturais, manifestou-se também no futuro na rejeição das demais leis proferidas por Deus. O Senhor acabou, por fim, selecionando grupos de animais que não deveriam ser consumidos em hipótese alguma, além de outros que seriam menos prejudiciais (Lv 11) e cujo consumo foi autorizado. O fato de Deus ter regulamentado o consumo de carne não significa que Ele havia passado a aprova-lo; que Deus havia, digamos, mudado de opinião. A escravidão jamais esteve nos planos de Deus, mas Ele a regulamentou (Lv 25:39-55) para que seu povo não cometesse as atrocidades que os povos vizinhos cometiam com seus escravos. O divórcio jamais esteve nos planos de Deus, mas Ele o regulamentou para que Seu povo não agisse conforme agiam os povos de sua época (Dt 24:1-4). Isso foi necessário “por causa da dureza do vosso coração” (Mt 19:8), como explicou Jesus:

“Vieram a ele alguns fariseus e o experimentavam, perguntando: é lícito ao marido repudiar a sua mulher por qualquer motivo? Então, respondeu ele: não tendes lido que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher e que disse: por esta causa deixará o homem pai e mãe e se unirá à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne? De modo que já não são mais dois, porém uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não separe o homem. Replicaram-lhe: por que mandou, então, Moisés dar carta de divórcio e repudiar? Respondeu-lhes Jesus: Por causa da dureza do vosso coração é que Moisés vos permitiu repudiar vossa mulher; entretanto, não foi assim desde o princípio” (Mt 19:3-8).

Note que quando Jesus explica o casamento, ele recorre ao plano original estabelecido no Éden, relatado em Gênesis 2:24. É para lá que devemos olhar quando abordamos a questão do regime alimentar.

A possibilidade de se conceder cartas de divórcio só foi admitida por causa da dureza de coração dos israelitas, por causa de sua resistência em aceitar o ideal de Deus. Esse tipo de regulamento tinha por objetivo minimizar os efeitos dos males que adviriam com o divórcio, não sancionar o divórcio como algo bom. O mesmo se pode dizer quanto ao uso da carne como alimento. A escritora Ellen White é bastante esclarecedora ao comentar o uso da carne pelos israelitas:

“Quando o Deus de Israel tirou o Seu povo do Egito, privou-os de alimento cárneo em grande medida, mas deu-lhes pão do Céu e água da dura rocha. Com isto não ficaram eles satisfeitos. Abominaram o alimento que lhes fora dado e desejaram voltar para o Egito, onde podiam sentar-se junto às panelas de carne. Preferiam suportar a escravidão, e até mesmo a morte, a serem privados da carne. Deus lhes satisfez o desejo, dando-lhes carne, e deixando-os comerem-na até que sua glutonaria gerou uma praga, em consequência da qual muitos morreram” (WHITE, 2005, p. 148, grifo nosso).

“Foi unicamente devido a seu descontentamento e murmuração em torno das panelas de carne do Egito que lhes foi concedido alimento cárneo, e isso apenas por pouco tempo. Seu uso trouxe doença e morte a milhares. Apesar disso, um regime sem carne não foi nunca aceito de coração. Continuou a ser causa de descontentamento e murmuração, franca ou secreta, e não ficou permanente” (WHITE, 2006a, p. 311, grifo nosso).

“Afastando-se do plano divinamente indicado para seu regime, sofreram os israelitas grande prejuízo. Desejaram um regime cárneo, e colheram-lhe os resultados. Não atingiram ao divino ideal quanto ao seu caráter, nem cumpriram os desígnios de Deus. O Senhor ‘satisfez-lhes o desejo, mas fez definhar a sua alma’. Sal. 106:15. Estimaram o terreno acima do espiritual, e a sagrada preeminência que Deus tinha o propósito de lhes dar não conseguiram eles obter” (WHITE, 2006a, p. 311-312, grifo nosso).

Imagine se você tivesse o privilégio de comer um alimento preparado diretamente por Deus, assim como os israelitas tinham o maná! Pois bem, nós temos esse privilégio. Quem projetou os detalhes de uma maçã ou de uma pera? Quem estabeleceu os nutrientes que seriam produzidos em cada uma dessas frutas, ou a maneira pela qual eles seriam formados? Quem criou as reações químicas que ocorrem no interior de cada célula e as leis fundamentais que regem os processos naturais? No deserto, o alimento preparado por Deus vinha do céu. Nos lugares em que vivemos, o alimento preparado por Deus cresce na terra.


4. O EXEMPLO DE DANIEL

Os benefícios de uma dieta vegetariana ficam patentes no episódio narrado no capítulo 1 de Daniel:

“Experimenta, peço-te, os teus servos dez dias; e que se nos deem legumes a comer e água a beber. Então, se veja diante de ti a nossa aparência e a dos jovens que comem das finas iguarias do rei; e segundo vires, age com os teus servos. Ele atendeu e os experimentou dez dias. No fim dos dez dias, a sua aparência era melhor; estavam eles mais robustos do que todos os jovens que comiam das finas iguarias do rei. Com isto, o cozinheiro-chefe tirou deles as finas iguarias e o vinho que deviam beber e lhes dava legumes. (...). Em toda matéria de sabedoria e de inteligência sobre que o rei lhes fez perguntas, os achou dez vezes mais doutos do que todos os magos e encantadores que havia em todo o seu reino” (Dn 1:12-20).

Note que o texto não tenta nos ensinar que Daniel e seus três companheiros passaram a adotar uma dieta vegetariana a partir daquele momento. Tudo indica que eles eram vegetarianos desde a infância:

“Quando Daniel e seus companheiros foram levados à prova, colocaram-se completamente do lado da justiça e da verdade. Não agiram caprichosamente, mas com inteligência. Resolveram que, como os alimentos cárneos não haviam feito parte de seu regime antes, tampouco deveriam usá-lo no futuro. E como o uso de vinho fora proibido a todos os que devessem se empenhar no serviço de Deus, resolveram não participar dele.” (WHITE, 1968,  p.  261).

Sua recuperação da extenuante viagem de 1500 km, realizada a pé ao longo de dois meses (MAXWELL, 2006, p. 19), foi mais rápida do que a dos demais por causa disso. O Comentário Bíblico Adventista do Sétimo Dia explica:

“Daniel e seus companheiros já tinham uma aparência saudável (ver PR, 482) resultante dos benefícios de dieta adequada. Sua recuperação dos rigores da longa marcha desde a Judeia foi, sem dúvida, mais notável do que a de outros cativos que não cultivaram hábitos saudáveis” (NICHOL; DORNELLES, 2013, p. 836).

Os resultados a longo prazo do estilo de vida de Daniel não são menos notáveis. Mesmo em sua velhice, durante o reinado de Dario, o vigor intelectual de Daniel não havia se abatido:

“O rei Dario resolveu dividir o país em cento e vinte províncias e escolher cento e vinte homens para governá-las. A fim de que tudo corresse bem, e não houvesse prejuízo, o rei nomeou três ministros para controlarem os cento e vinte governadores. Um desses ministros era Daniel, e ele mostrou logo que era mais competente do que os outros ministros e governadores. Ele tinha tanta capacidade, que o rei pensou em colocá-lo como a mais alta autoridade do reino” (Dn 6:1-3, NTLH).

Como comenta o autor Arilton Oliveira:

“Sua observância aos princípios e leis de saúde, (...), sem dúvida contribuiu para o vigor intelectual e físico incomum aos homens de sua idade” (OLIVEIRA, 2014, p.100).


5. MAS JESUS COMEU PEIXE!

Infelizmente, grande parte do mundo cristão escolhe fechar os olhos a todas essas evidências e apontar apenas para Lc 24:42, 43, que relata uma ocasião (possivelmente não a única) em que Jesus comeu peixe. Aí está! Dizem eles. Jesus comeu carne e, portanto, devemos comer carne também!

Gostaria de chamar sua atenção para três textos:

“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por intermédio dEle, e, sem Ele, nada do que foi feito se fez” (Jo 1:3).

“Também disse Deus: façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gn 1:26).

“E disse Deus ainda: eis que vos tenho dado todas as ervas que dão semente e se acham na superfície de toda a terra e todas as árvores em que há fruto que dê semente; isso vos será para mantimento” (Gn 1:29).

O texto de João nos informa que por meio de Jesus foram feitas todas as coisas. Gênesis 1:26 deixa claro que mais de uma pessoa da divindade estava presente na criação. A ordem de Gn 1:29 a respeito da alimentação veio da Trindade. Como Jesus disse em Jo 10:30, “Eu e o Pai somos um”. A ordem que tratava da alimentação originalmente planejada para o ser humano partiu diretamente de Jesus. Foi Ele mesmo quem estabeleceu a dieta vegetariana como o seu propósito para o sustento da humanidade. Estaria agora Jesus se contradizendo ou mudando seu plano original? Será que depois do pecado a carne passou a ser mais saudável dos que os vegetais? A diminuição do tempo de vida das sucessivas gerações após o Dilúvio (Figura 2), o relato de Daniel 1, e a provisão do maná sugerem o contrário. Todavia, por causa da “dureza de coração dos israelitas”, ela foi permitida, mas com restrições. O ministério de Jesus não tinha por objetivo reestabelecer a dieta vegetariana entre o povo judeu ou entre os gentios que se converteriam ao cristianismo. O alimento comum – aquele que as famílias de classe baixa dos arredores do Mar da Galileia tinham disponível todos os dias em sua mesa – era o alimento simples de um pescador, pão e peixe. Na ocasião da multiplicação, seus discípulos lhe trouxeram um jovem que carregava esse tipo de alimento:

“Está aqui um rapaz que tem cinco pães de cevada e dois peixinhos; mas isto que é para tanta gente?” (Jo 6:9).

Cevada era um alimento barato, menos valorizado do que o trigo, e era especialmente importante para a subsistência das famílias mais pobres (MAXWELL, 2012, p. 181). Pães de cevada e dois peixinhos eram a comida de um rapaz que possivelmente fazia parte de uma família com poucos recursos. Imagine, agora, Jesus adentrando ao lar dessa família, provavelmente judeus. A mãe corre para a cozinha e reúne o melhor que tem à sua disposição. O alimento que tem ali guardado é talvez a única coisa que ela e sua família comeriam naquele e no dia seguinte. Mas é Jesus quem está ali! E ela toma tudo o que tem e coloca diante do Mestre. O que você acha que Jesus faria? Rejeitaria os peixes preparados com tanta dedicação e a um custo tão alto para a subsistência daquela família, partindo o coração daquela mulher? Esse não me parece ser o Jesus revelado nos evangelhos. Uma verdade marcante da palavra de Deus é o fato de Ele ser compassivo com a condição cultural na qual as pessoas com quem lida estão imersas.

Em Lc 24:43, o motivo pelo qual Jesus pediu algo para comer está muito claro:

“E por não acreditarem eles ainda, por causa da alegria, e estando admirados, Jesus lhes disse: tendes aqui alguma coisa que comer? Então lhe apresentaram um pedaço de peixe assado [e um favo de mel]. E ele comeu na presença deles” (Lc 24:41-43).

Os discípulos não haviam acreditado que estavam olhando para Jesus e estavam “surpresos e atemorizados, acreditavam estarem vendo um espírito” (Lc 24:37). Para lhes mostrar que Ele era realmente Jesus ressuscitado, com um corpo físico tal qual os salvos terão após a glorificação (1Co 15), Jesus pede algo para comer. Apresentam-lhe um “pedaço de peixe”. Poderia se tratar de um pedaço retirado de um peixe grande, mas talvez esse fosse o resto de toda a comida de que dispunham naquela ocasião. O que Jesus faria? Como diz o autor de Eclesiastes:

“Tudo tem seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu” (Ec 3:1).

O objetivo de Jesus ali era mostrar que estava ressuscitado e que possuía um corpo físico; que não era um fantasma. E foi exatamente isso o que aconteceu. O fato dos discípulos lhe oferecerem peixe sugere que Jesus, talvez, costumasse partilhar desse tipo de alimento com eles. Mas o foco naquele momento era outro. Aquele não era o tempo para que a mensagem de saúde, tal qual a temos hoje, fosse proclamada. O capítulo 12 de Daniel deixa claro que existem verdades que não seriam compreendidas em seu tempo e nem no tempo dos discípulos de Jesus, mas apenas no tempo do fim (Dn 12:4); “mas a vereda dos justos é como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito” (Pv 4:18).

É interessante que justamente as pessoas que se valem de passagens em que Jesus comeu ou proveu peixe como alimento ignoram as lições mais óbvias dos episódios ali relatados. Nas multiplicações de pães e peixes, Jesus poderia ter fornecido qualquer tipo de alimento para a multidão, mas escolheu o alimento simples, a comida diária de um pescador. Há um contraste gritante entre o que Jesus proveu e o que se encontra nas mesas das pessoas que normalmente recorrem a Lc 24:43. Não há nada de simples, lá. Há, sim, alimentos condimentados, refrigerantes cafeinados, frituras de todo o tipo, sorvete, pizza, e o que é pior, não raro, tudo isso de uma vez só! Será que essas pessoas realmente estão dispostas a seguir a lição do Mestre quanto à simplicidade na alimentação? Se você é uma delas, deixe-me lhe perguntar: qual foi a última vez que você passou perto de um pão de cevada? Mas não precisamos ir tão longe: qual foi a última vez que você comeu pão de trigo integral?

Como ensina Ellen White:

“A simplicidade da refeição passada em torno, pela mão dos discípulos, encerra todo um tesouro e lições. Era um modesto artigo, o que se proporcionou; peixes e os pães de cevada eram o alimento diário dos pescadores dos arredores do Mar da Galileia. Cristo poderia haver exibido diante do povo um rico repasto, mas a comida preparada para a mera satisfação do apetite não teria transmitido nenhuma lição para benefício deles. Jesus lhes ensinou nesta lição que as naturais provisões de Deus para o homem foram pervertidas. E nunca se deliciou alguém com os luxuosos banquetes preparados para a satisfação do pervertido gosto, como esse povo fruiu o descanso e a frugal refeição proporcionada por Cristo, tão longe das habitações humanas.”
“Se os homens fossem hoje em dia simples em seus hábitos, vivendo em harmonia com as leis da Natureza, como faziam Adão e Eva no princípio, haveria abundante provisão para as necessidades da família humana” (WHITE, 2006b, p. 366-367, grifo nosso).


6. O JUÍZO INVESTIGATIVO

Aconselho o leitor que não esteja familiarizado com o tema do Juízo Investigativo a consultar o livro de C. Mervin Maxwell, Uma nova era segundo as profecias de Daniel (MAXWELL, 2006). Nessa obra o leitor encontrará a base teológica para os períodos proféticos e datas mencionadas a seguir.

A Crença Fundamental no. 24 da IASD, O Ministério de Cristo no Santuário Celestial, declara:

“Há um santuário no Céu, o verdadeiro tabernáculo que o Senhor erigiu, não o homem. Nele Cristo ministra em nosso favor, tornando acessíveis aos crentes os benefícios de Seu sacrifício expiatório oferecido uma vez por todas na cruz. Ele foi empossado como nosso grande Sumo Sacerdote e começou Seu ministério intercessório por ocasião de Sua ascensão. Em 1844, no fim do período profético dos 2.300 dias, Ele iniciou a segunda e última etapa de Seu ministério expiatório. É uma obra de juízo investigativo, a qual faz parte da eliminação final de todo pecado, prefigurada pela purificação do antigo santuário hebraico, no Dia da Expiação. Nesse serviço típico, o santuário era purificado com o sangue de sacrifícios de animais, mas as coisas celestiais são purificadas com o perfeito sacrifício do sangue de Jesus. O juízo investigativo revela aos seres celestiais quem dentre os mortos dorme em Cristo, sendo, portanto, nEle, considerado digno de ter parte na primeira ressurreição. Também torna manifesto quem, dentre os vivos, permanece em Cristo, guardando os mandamentos de Deus e a fé de Jesus, estando, portanto, nEle, preparado para a trasladação ao Seu reino eterno. Este julgamento vindica a justiça de Deus em salvar os que creem em Jesus. Declara que os que permaneceram leais a Deus receberão o reino. A terminação do ministério de Cristo assinalará o fim do tempo da graça para os seres humanos, antes do segundo advento.
Heb. 8:1-5; 4:14-16; 9:11-28; 10:19-22; 1:3; 2:16 e 17; Dan. 7:9-27; 8:13 e 14; 9:24-27; Núm. 14:34; Ezeq. 4:6; Lev. 16; Apoc. 14:6 e 7; 20:12; 14:12; 22:12”
(http://www.adventistas.org/pt/institucional/crencas/)

Entendemos, portanto, que o ministério no antigo santuário terrestre era uma representação didática do plano da redenção até a sua conclusão com o retorno de Cristo. Como o texto acima diz, desde 1844 temos vivido o último estágio do ministério de Cristo no Santuário Celestial antes de Sua volta a este mundo, o Juízo Investigativo, que corresponde ao antigo Dia da Expiação. Esse era o dia de “afligir a alma”:

“Isso vos será por estatuto perpétuo: no sétimo mês, aos dez dias do mês, afligireis a vossa alma e nenhuma obra fareis, nem o natural nem o estrangeiro que peregrina entre vós” (Lv 16:29).

“Mas, aos dez dias deste mês sétimo, será o Dia da Expiação; tereis santa convocação e afligireis a vossa alma; trareis oferta queimada ao Senhor”(Lv 23:27).

Esse dia foi chamado por Paulo de “Dia do Jejum” (At 27:9). Outros textos nos ajudam a entender que o ato de afligir a alma, que significava literalmente “examinar-vos-ei”, “ficareis aflitos”, “humilhar-vos-ei”, incluía também o jejum, como Sl 35:13 ou Is 58:3:

“Dizendo: porque jejuamos nós, e tu não atentas para isso? Por que afligimos nossa alma, e tu não o levas em conta? Eis que no dia em que jejuais cuidais dos vossos próprios interesses e exigis que se faça todo o vosso trabalho” (Is 58:3).

Note o paralelismo entre as duas perguntas do texto de Is 58:3, que estabelece uma correspondência entre afligir a alma e jejuar. Mas qual a necessidade de se jejuar no Dia da Expiação? Muitas pessoas no mundo Cristão, ainda nos dias de hoje, possuem uma compreensão errada sobre o papel do jejum. Entendem que se trata de algum tipo de sacrifício ou oferta, como se o fato de estarmos nos privando de alimento e “passando fome” de algum modo dissesse para Deus: “veja, quero muito isso, olhe o sacrifício que estou fazendo!”.  As coisas não são bem assim. Se, como vimos antes, o alimento influencia nosso julgamento, a abstinência temporária de alimento também deve ter seus efeitos sobre o mesmo. Esses efeitos, de fato, são muito bons. Qualquer pessoa que já tenha jejuado seriamente deve ter percebido como fica muito mais fácil aprender e raciocinar. Durante a digestão, boa parte de nosso sangue é requisitada na região próxima ao estômago. Essa porção do sangue, que estaria distribuída para todo o organismo, é concentrada ali e, consequentemente, há menos sangue disponível para outras partes do corpo, inclusive o cérebro. Em outras palavras, o cérebro não trabalha no auge de sua capacidade enquanto o corpo está se ocupando da digestão. Isso sem falarmos nas combinações erradas de alimentos que causam fermentação e literalmente embriagam produzindo etanol, a mesma substância química encontrada nas bebidas alcoólicas. Durante o jejum, nosso cérebro pode funcionar com toda a força; nossa mente fica mais ativa; o raciocínio fica mais claro. É por meio da mente que o Espírito Santo se comunica conosco, e durante um jejum estamos nos colocando nas melhores condições para que isso ocorra. Estamos “tirando a pedra” para que Deus possa executar o milagre da transformação de nosso coração.

O Dia da Expiação era um dia em que os israelitas deviam se dedicar ao autoexame de coração. Isso, obviamente, devia e deve ser feito todos os dias, mas aquele era um dia especial. Deus queria que Seus filhos estivessem nas melhores condições para ouvir a suave voz de Seu Espírito e pudessem, pelo arrependimento e perdão, ser purificados de sua maldade.

Se entendemos que o Dia da Expiação do Antigo Testamento representa a obra que Cristo está hoje executando no Santuário Celestial desde 1844, devemos nos perguntar sobre qual é nossa parte. Ora, se era necessário aos israelitas tomar um cuidado muito especial naquela ocasião com respeito à sua capacidade de discernimento, tanto mais o é hoje aos que se dizem filhos de Deus. A Bíblia nos adverte, repetidamente, sobre as dificuldades que encontraríamos nos últimos dias envolvendo todos os aspectos de nossa vida. Haveria aumento de catástrofes naturais, epidemias, conflitos sociais e decadência moral (Mt 24:13-14; Lc 21:7-19; 2Tm 3:1-5). Vivendo em um mundo como esse, mais do que em qualquer outra época, precisamos ter uma mente clara e uma firme comunhão com Deus para não sermos levados pelos enganos que se colocam à nossa frente (2Ts 2:1-12).

Ellen White escreveu a respeito do efeito da carne sobre nossas faculdades físicas, mentais e espirituais:

“A comida de carne é prejudicial à saúde, e seja o que for que afete ao corpo tem seu efeito correspondente na mente e na alma” (WHITE, 2006a, p. 133).

“Os que condescendem com o comer carne, beber chá e a glutonaria, estão semeando para uma colheita de dor e morte. A comida prejudicial introduzida no estômago fortalece os apetites que combatem contra a alma, desenvolvendo as propensões inferiores. Um regime de carne tende a desenvolver a sensualidade. O desenvolvimento da sensualidade diminui a espiritualidade, tornando a mente incapaz de compreender a verdade” (WHITE, 2005, p. 382).

“Não é o tempo de todos dispensarem a carne da alimentação? Como podem aqueles que estão buscando tornar-se puros, refinados e santos a fim de poderem fruir da companhia dos anjos celestes continuar a usar como alimento qualquer coisa que exerça tão nocivo efeito na alma e no corpo?” (WHITE, 2006a, p. 134).

“Os que têm sido instruídos com relação aos efeitos prejudiciais do usa da alimentação cárnea, do chá e do café, bem como de comidas muito requintadas e insalubres, e que estão resolvidos a fazer com Deus um concerto de sacrifício, não hão de continuar a satisfazer o seu apetite com alimentos que sabem ser prejudiciais à saúde” (WHITE, 2005, p. 381).

“Tão verdadeiramente é pecado violar as leis de nosso ser como o é quebrantar os Dez mandamentos. Num e noutro caso há transgressão às leis de Deus. Os que transgridem a lei de Deus em seu organismo físico estarão inclinados a violar a lei de Deus proferida no Sinai” (WHITE, 2005, p. 17).

O apóstolo Paulo escreve:

“Portanto, matem os desejos deste mundo que agem em vocês, isto é, a imoralidade sexual, a indecência, as paixões más, os maus desejos e a cobiça, porque cobiça é um tipo de idolatria” (Cl 3:5, NTLH).

Como vamos matar os “desejos deste mundo” se usamos exatamente aquilo que os alimenta? No período mais solene de nossa história vamos continuar a usar alimentos que fortaleçam nossas piores características e sabotam nosso relacionamento com Deus?

Ellen White comenta o desejo de Deus para Seu povo nos últimos dias desse mundo:

“Repetidamente tem-se-me mostrado que Deus está trazendo de volta o Seu povo ao seu desígnio original, isto é, que ele não dependa da carne de animais mortos. Ele gostaria que ensinássemos ao povo um caminho melhor... Se a carne for abandonada, se o gosto não for estimulado nessa direção, se a apreciação por frutas e cereais for encorajada, logo será como Deus no início desejou que fosse. Nenhuma carne será usada por Seu povo” (WHITE, 2005, p. 82).


7. UM POUCO DE CIÊNCIA

Em Seu sermão profético, Jesus descreve um cenário para os últimos dias que envolve, entre outras coisas, epidemias (Lc 21:11). Ao contrário das expectativas daqueles que creem que a ciência tem as respostas para tudo, a profecia bíblica deixa claro que nossa capacidade de lidar com os males que surgem não será suficiente para conter as novas doenças ou o alastramento das que já existem. Veja a conclusão de um estudo realizado pelas Nações Unidas:

Mais de 70 por cento das doenças humanas se originam em animais, e nossa população humana em expansão tem ocupado mais regiões selvagens e se tornado cada vez mais dependente de animais para comida” (SLINGERBERGH, 2013, p. ix, grifo nosso).

Em outras palavras, cerca de 70% das doenças de hoje poderiam nunca ter existido se tão somente a humanidade tivesse seguido o plano original de Deus com respeito à alimentação. Estudo após estudo, a ciência tem nos esclarecido as razões para isso. Vejamos algumas descobertas científicas em relação ao consumo de carne ou de alimentos de origem animal.

A substância química N-óxido de trimetilamina (TMAO) está associada à arteriosclerose, aumento de risco de doenças cardíacas, AVC, infarto e morte. Os alimentos de origem animal contêm grandes quantidades de uma substância chamada carnitina. Bactérias intestinais formam trimetilamina (TMA) a partir da carnitina. A TMA, por sua vez, é oxidada no fígado para formar o TMAO. As pessoas que não ingerem alimentos de origem animal não possuem a bactéria que converte carnitina em TMA, que depois gera o TMAO (TANG, 2013). O risco de câncer em geral pode ser reduzido em 40% pela eliminação da carne e derivados da alimentação. No caso do câncer de intestino, a redução chega a 66% (CAMPBELL; CAMPBELL, 2006).

O aminoácido metionina é encontrado em altos níveis na carne vermelha, de frango e de peixe, bem como em ovos e queijo. Esse é um nutriente do qual precisamos, mas nos níveis certos. Se os alimentos de origem animal, particularmente as carnes, forem usados como base da dieta, a quantidade de metionina ingerida pode ficar acima do necessário. A homocisteína, produzida pelo organismo a partir da metionina, é um fator de risco conhecido para AVC, infarto, mal de Alzheimer, entre outros (VIDOTO, 2015, p. 76).

Em 1 Coríntios 3:16, 17, lemos:

“Não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o santuário de Deus, Deus o destruirá; porque o santuário de Deus, que sois vós, é sagrado” (1 Co 3:16,17).

Já vimos que o consumo de carne é responsável pela produção de uma substância chamada TMAO, que pode causar arteriosclerose, doenças cardíacas, AVC e infarto. O que você acha que uma pessoa faz ao seu corpo quando ingere um alimento que leva à produção dessa substância? A resposta é óbvia: isso é destruir o seu corpo, ou, em outras palavras, destruir o santuário do Espírito Santo! E se isso é feito de forma consciente, as coisas são piores ainda. É esse o alimento que Deus teria preparado para o ser humano? Um alimento que provoca doenças cardíacas, degeneração do sistema nervoso, câncer, morte e sofrimento? Deus seria, nesse caso, o responsável direto por toda a doença e sofrimento que vemos causadas pela ação de substâncias tóxicas presentes na carne ou produzidas a partir de seu consumo. Mas isso está errado! É triste olharmos para o desespero de amigos que foram surpreendidos ao descobrir um câncer de intestino, sabendo que 66% do risco desse câncer poderia ser eliminado tão somente pelo abandono da carne (outra grande porção desapareceria se colocássemos de lado os grãos refinados e utilizássemos alimentos integrais).


8. CONCLUSÃO

Caminhamos para os últimos dias desse mundo. É preciso, mais do que nunca, nos apegarmos às orientações que Deus nos deixou e fortalecermos as preciosas faculdades com que fomos dotados. É hora de deixar de lado o egoísmo, que olha apenas para a satisfação própria, e passar a agir de modo a prestar a Deus nosso melhor serviço.  A questão do uso de carne como alimento é muito mais séria do que parece aos olhos da maioria. Ela não apenas debilita nossas faculdades físicas e mentais, mas acaba por alimentar justamente os males que precisam ser vencidos. Uma explicação bastante detalhada sobre o assunto pode ser encontrada no livro Concelhos sobre o regime Alimentar (WHITE, 2005). Destaco aqui alguns trechos:

“Agora e daqui por diante até o fim do tempo, deve o povo de Deus ser mais fervoroso, mais desperto, não confiando em sua própria sabedoria, mas na sabedoria de seu Líder. Deve pôr de parte dias de jejum e oração. Pode não ser requerida a completa abstinência de alimento, mas devem comer moderadamente, do alimento mais simples” (WHITE, 2005, p. 188).

“Entre os que estão aguardando a vinda do Senhor, o comer carne será afinal abandonado; a carne deixará de fazer parte de sua alimentação. Devemos ter sempre isto em vista e esforçar-nos por trabalhar firmemente nessa direção. Não posso pensar que estejamos em harmonia com a luz que Deus tem sido servido de nos dar, nessa prática de comer carne. Todos quanto se acham ligados a nossas instituições médicas, em especial, devem estar-se educando para viver de frutas, cereais e verduras” (WHITE, 2005, p. 380).

“A reforma de saúde deve efetuar entre nosso povo uma obra que ainda não se fez. Há pessoas que devem ser despertadas para o perigo de comer carne, que ainda comem carne de animais, pondo assim em risco a saúde física, mental e espiritual. Muitos que são agora só meio convertidos quanto à questão de comer carne, sairão do povo de Deus, para não mais andar com Ele” (WHITE, 2005, p. 382, grifo nosso).

É importante dizer que qualquer mudança em seu regime alimentar deve ser muito bem estudada e planejada. Não se trata simplesmente de remover um item do cardápio, mas de fazer toda uma readequação para que seu organismo não venha a experimentar deficiências nutricionais. Estude e converse com pessoas que já vivem o vegetarianismo há algum tempo. Se você possui alguma restrição médica, procure assistência especializada e a ajuda de um nutricionista, de preferência um que conheça o vegetarianismo por experiência própria.

Por fim, ninguém é salvo por observar a lei moral contida nos dez mandamentos. Da mesma forma, ninguém é salvo por observar as leis naturais estabelecidas por Deus. Nossa salvação tem um único nome: Jesus Cristo. Justamente por aceitar a salvação que Ele nos oferece é que devemos trabalhar para andar em harmonia com Sua vontade. E a vontade dEle é sempre o melhor caminho.


REFERÊNCIAS

CAMPBELL, T.; CAMPBELL, T. C. The China study: startling implicarions for diet, weight loss and long-term health. Dallas: BenBella Books, 2006.

FERREIRA, J. F. S.; LUTHRIA, D. L.; SASAKI, T.; HEYERICK, A. "Flavonoids from Artemisia annua L. as antioxidants and their potential synergism with artemisinin against malaria and cancer". Molecules 15 (5): 3135–3170. 2010.

KNIGHT, G. (notas e introdução histórica e teológica) Questões sobre doutrinas. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2008.

MAXWELL, C. M. Uma nova era segundo as profecias de Daniel, 2. ed. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira. 2006.

MAXWELL, C. M. Uma nova era segundo as profecias do Apocalipse. 3. ed. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2012.

NICHOL, F. D. (Ed.); DORNELES, V. (Ed.) Comentário bíblico Adventista do Sétimo Dia, vol. 4. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2013.

NICHOL, F. D. (Ed.); Dorneles DORNELES, V. (Ed.) Comentário bíblico Adventista do Sétimo Dia, vol. 1. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2011.

OLIVEIRA, A. Daniel – segredos da profecia. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2014.

SLINGERBERGH, J. (Ed.) World livestock 2013 – changing disease landscapes. Rome: Food and Agriculture Organization of the United Nations, 2013.

TANG, W. H. W; WANG, Z.; LEVISON, B. S.; KOETH, R. A.; BRITT, E. B.; FU, X.; WU, Y.; HAZEN, S. L., “Intestinal microbial metabolism of phosphatidylcholine and cardiovascular risk”, The New England Journal of Medicine 368: 1575-1584. 2013.

VIDOTTO, M. L. Saúde nua e crua, Cotia: Ed. do autor, 2015.

WHITE, E. G, Nos lugares celestiais, [MM 1968], p.  261; Youth’s Instructor, 18/08/1898.

WHITE, E. G. Conselhos sobre o regime alimentar. 12. ed. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2005.

WHITE, E. G. A ciência do bom viver, 10. ed. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2006a.

WHITE, E. G. O Desejado de todas as nações, 22. ed. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2006b.

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