domingo, 5 de março de 2017

Olhando de perto um ícone da evolução



O rato veadeiro (Peromyscus maniculatus) é um dos mamíferos mais comuns da América do Norte. Normalmente ele possui uma pelagem escura, que o ajuda a se camuflar em solos também escuros, evitando que seja alvo de corujas e falcões. Entretanto, quando vamos para as colinas arenosas de Nebraska, que possuem cor clara, os ratos veadeiros passar a ser predominante de uma cor parecida com a da areia.[1]

Um grupo de pesquisadores fabricou ratos de plastilina (um material especial para moldagem) com colorações claras e escuras e os expuseram aos predadores comuns de Nebraska.[2] Como esperado, os modelos de coloração escura eram atacados com muito mais frequência do que os de coloração clara. Os pesquisadores concluíram, corretamente, que os ratos de coloração clara possuíam uma grande vantagem seletiva naquela região. Esse trabalho foi divulgado mídia afora como mais uma forte evidência a favor da teoria da evolução. [3] Mas vejamos os fatos.

Células especiais nesses ratos fabricam dois tipos de pigmentos, a eumelanina, de cor marrom, e a feomelanina, de uma espécie de dourado mais claro. Um único gene, chamado de Agouti, regula as quantidades em que esses pigmentos são produzidos. Os ratos de cor clara possuem uma versão mutante desse gene, o que faz com que a proteína que ele produz contenha um aminoácido a menos. Essa pequena mudança provoca um desarranjo que diminui a produção de eumelanina (escuro) e aumenta a de feomelanina (claro).[4] Estudos genéticos complementares encontraram outras mutações nesse mesmo gene que ajudam a deixar a coloração dos ratos ainda mais similar à da areia.[2]

Precisamos ter muito cuidado, todavia, ao igualar seleção natural a evolução. Como já foi dito aqui, os criacionistas não têm problemas com o conceito de seleção natural. O problema é com as extrapolações injustificadas que são feitas a partir de histórias como a do rato veadeiro.

Os ratos já possuíam toda a maquinaria molecular para a produção tanto do pigmento claro como do escuro. Um defeito na regulagem da produção fez com que o pigmento claro fosse produzido em maior quantidade do que o escuro em alguns animais, o que acabou sendo uma vantagem para os que viviam sobre areias claras. O que existe de realmente novo aqui? Absolutamente nada! Deletamos um aminoácido de uma proteína, que por isso passou a não fazer seu trabalho direito. Por sorte, esse defeito acabou sendo benéfico para os ratos naquela região.

Quando os criacionistas contestam o poder da seleção natural, isso não diz respeito ao tipo de situação descrita acima. Estamos falando da capacidade da seleção natural para a produção da complexa maquinaria molecular responsável pela manutenção da vida no interior das células. Mais ainda, estamos falando da capacidade da seleção natural em transformar um micróbio em um ser humano. Não temos qualquer evidência de coisas desse tipo, apenas de casos como o do rato veadeiro.


Referências


1 Catchpoole, D., Nebraska deer mice, evolutions latest ‘icon’?, Creation 38(2): 44-45, 2016.

2 Linnen, C.R., Poh, Y.-P., Peterson, B., Barrett, R., Larson, J., Jensen, J., Hoekstra, H., Adaptive evolution of multiple traits through multiple mutations at a single gene, Science 339(6125):1312-1316, 2013.

3 Walker, M., Mouse set to be ‘evolution icon’, bbc.co.uk, 27 August 2009.

4 Linnen, C., Kingsley, E., Jensen, J., and Hoekstra, H., On the origin and spread of an adaptive allele in deer mice, Science 325(5944):1095–1098, 2009.