domingo, 17 de setembro de 2017

Estudo aponta relação entre nutrição e inteligência


A nutrição tem sido ligada à performance cognitiva, mas os pesquisadores ainda não identificaram em que se baseia essa conexão. Um novo estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Illinois descobriu que ácidos graxos monoinsaturados [conhecidos como MUFAs, do inglês monounsaturated fatty acids] – uma classe de nutrientes encontrados no óleo de oliva, em nozes e abacates – estão ligados à inteligência geral, e que esta relação é guiada pela correlação entre MUFAs e a organização da rede de atenção do cérebro.

O estudo de 99 adultos idosos, recrutados através do Carle Foundation Hospital, in Urbana, comparou padrões de ácidos graxos encontrados em amostras de sangue, em MRI funcional que mediu a eficiência das redes cerebrais, e nos resultados de um teste de inteligência geral. O estudo foi publicado na revista NeuroImage.

“Nosso objetivo era entender como a nutrição deve ser usada para apoiar a performance cognitiva e estudar as formas pelas quais a nutrição pode influenciar a organização funcional do cérebro humano.” disse o líder do estudo Aron Barbey, um professor de psicologia. “Isso é importante porque se desejamos desenvolver intervenções nutricionais que são efetivas para o aumento da performance cognitiva, precisamos entender as formas pelas quais esses nutrientes influenciam a função cerebral.”

“Neste estudo, examinamos a relação entre grupos de ácidos graxos e as redes cerebrais que sustentam a inteligência geral. Ao fazê-lo, procuramos entender se a organização da rede cerebral mediava a relação entre ácidos graxos e a inteligência geral,” disse Marta Zamroziewicz, uma recém-graduada em Ph.D do programa de neurociência em Illinois e autora principal do estudo.

Estudos sugerindo benefícios cognitivos da dieta do Mediterrâneo, que é rica em MUFAs, inspiraram os pesquisadores a focar nesse grupo de ácidos graxos. Eles examinaram nutrientes no sangue dos participantes e descobriram que os ácidos graxos se agrupavam em dois padrões: ácidos graxos saturados e MUFAs.

“Historicamente, a abordagem tem sido focar nos nutrientes individuais. Mas sabemos que a ingestão dietética não depende apenas um nutriente específico; ao invés disso, ela reflete padrões dietéticos mais amplos,” diz Barbey, que também é afiliado ao Instituto Beckeman para Ciência Avançada e Tecnologia, em Illinois.

Os pesquisadores descobriram que a inteligência geral estava associada com a rede cerebral de atenção dorsal, que desempenha um papel central em tarefas que demandam atenção e na solução de problemas do dia a dia. Em particular, os pesquisadores descobriram que a inteligência geral estava associada com o quão eficientemente a rede de atenção dorsal é organizada funcionalmente, algo que se mede por uma grandeza chamada de propensão a pequenos mundos, que descreve o quão bem a rede neural está conectada com regiões de agrupamentos locais, bem como através de sistemas integrados globalmente.

Eles descobriram que aqueles com maiores níveis de MUFAs em seu sangue possuíam maior propensão para pequenos mundos em sua rede de atenção dorsal. Analisados em conjunto com a correlação observada entre os altos níveis de MUFAs e maior inteligência geral, essas descobertas sugerem um caminho pelo qual os MUFAs afetam a cognição.

“Nossas descobertas fornecem novas evidências de que MUFAs estão relacionadas a um rede cerebral muito específica, a rede dorsal de atenção, e com o quão ótima é a organização funcional dessa rede,” disse Barbey. “Nossos resultados sugerem que se desejamos entender a relação entre MUFAs e a inteligência geral, necessitamos levar a rede dorsal de atenção em consideração. Ela é parte do mecanismo básico que contribui para sua relação.”

Barbey espera que essas descobertas irão guiar futuras pesquisas sobre como a nutrição afeta a cognição e a inteligência. Em particular, a próxima etapa é executar um estudo intervencional ao longo do tempo para ver se a ingestão de MUFA a longo prazo influencia a organização da rede cerebral e a inteligência.

“Nossa habilidade de relacionar esses efeitos cognitivos benéficos a propriedades específicas na rede cerebral é excitante,” disse Barbey. “Isso nos dá evidência do mecanismo pelo qual a nutrição afeta a inteligência e motiva novas direções promissoras para pesquisa futura em neurociência cognitiva nutricional.”



Referências:

Marta K. Zamroziewicz, M. Tanveer Talukdar, Chris E. Zwilling, Aron K. Barbey. Nutritional status, brain network organization, and general intelligence. NeuroImage, 2017; 161: 241 DOI: 10.1016/j.neuroimage.2017.08.043