quinta-feira, 19 de julho de 2018

Formações ferríferas bandadas e a explosão do Cambriano


As formações ferríferas bandadas (também conhecidas pelo inglês banded iron formations) são “rochas sedimentares químicas de idade pré-cambriana compostas por bandas alternadas de óxido de ferro (hematita, Fe2O3, ou magnetita, Fe3O4) e bandas de chert e/ou jasper” (Wikipedia). Imagina-se, tradicionalmente, que essas estruturas foram formadas por precipitação a partir da água do mar causada pela liberação de oxigênio produzido por cianobactérias. O oxigênio teria se combinado com o ferro dissolvido nos oceanos para formar óxidos de ferro insolúveis, que precipitariam para o fundo do oceano.

As formações ferríferas bandadas são geralmente encontradas antes do período Cambriano. A presença de todo esse ferro no oceano primitivo teria impedido o aumento do nível de oxigênio na atmosfera, uma vez que o oxigênio produzido pelas cianobactérias reagiria logo em seguida com o ferro oceânico formando compostos insolúveis que precipitariam. O fim desse estoque de ferro teria possibilitado o aumento do nível de oxigênio na atmosfera. A ideia de que essa elevação no nível de oxigênio tenha possibilitado a explosão cambriana vem ganhando cada vez mais destaque. [1]

É nesse contexto que precisamos analisar a recente descoberta de novas formações ferríferas bandadas com idades surpreendentemente menores do que as já conhecidas.[2] De acordo com a Universidade de Alberta (instituição à qual pertence o grupo que liderou a pesquisa):

“A formação ferrífera, localizada no oeste da China, foi conclusivamente datada como sendo de idade cambriana. Com aproximadamente 527 milhões de anos, essa formação é jovem em comparação com a maioria das descobertas até agora. Imagina-se há muito tempo que a deposição de formações ferríferas bandadas, que se iniciou há aproximadamente 3,8 bilhões de anos atrás, terminou antes do Período Cambriano, 540 milhões de anos atrás.”[3]

“Isso é crítico, uma vez que é a primeira observação de uma formação ferrífera bandada similar às do Pré-Cambriano que é mais recente do que o início do Cambriano. Isso oferece a mais conclusiva evidência para a presença de condições ricas em ferro por toda a parte naquele tempo, confirmando o que tem sido recentemente sugerido a partir de proxies geoquímicos”, disse Kurt Konhauser, co-author do trabalho.[3]

O achado cria um dilema. Se as formações ferríferas bandadas podem ser tomadas como indício de atmosfera pobre em oxigênio, então, até por volta de 527 milhões de anos atrás (na cronologia evolucionista) não teríamos uma atmosfera com concentrações apreciáveis de oxigênio, o que minaria uma das propostas para a razão da explosão do Cambriano. Se, por outro lado, insiste-se em que o início do Cambriano foi um período de atmosfera rica em oxigênio, à despeito das formações ferríferas bandadas posteriores, então a presença dessas formações no período Pré-Cambriano não pode, de forma similar, ser tomada como evidência de baixos níveis de oxigênio. Isso compromete uma importante evidência usada pelos defensores da abiogênese a favor de uma atmosfera redutora sob a qual teriam sido formados os compostos químicos que dariam origem às primeiras células (diga-se de passagem, um salto gigantesco: compostos químicos a células).

Um artigo recente da Nature menciona evidências geológicas a favor de uma atmosfera com concentrações de oxigênio relativamente altas no início do Cambriano. [1] Será que as formações ferríferas bandadas realmente significam o que dizem que elas significam, que existiu uma atmosfera redutora nos primórdios de nosso planeta?

Vamos esperar os desdobramentos, mas ao que tudo indica, os defensores da abiogênese precisarão rever suas posições a respeito do “fato da evolução química. É uma pena que, nesse campo, a única pergunta que se faça seja “como a vida se originou espontaneamente?” e não “como a vida se originou?”.

[1] Douglas Fox, “What sparkedthe Cambrian explosion”, Nature 530 (2016) 268.

[2] Zhi-Quan Li, Lian-Chang Zhang, Chun-Ji Xue, Meng-Tian Zheng, Ming-Tian Zhu, Leslie J. Robbins, John F. Slack, Noah J. Planavsky & Kurt O. Konhauser, “Earth’s youngest banded iron formation implies ferruginous conditions in the Early Cambrian ocean”, Scientific Reports 8 (2018) 9970.