segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Lagartos que mudam de cor em poucos dias. Evolução?

Crédito da imagem: Corl et al., Current Biology, 2018)
Você já ouviu falar no "efeito Baldwin"? Trata-se de uma proposta do psicólogo (isso mesmo, psicólogo) James Mark Baldwin publicada em 1896. Imagine que uma população de animais precise invadir um novo ambiente diferente daquele para o qual estão bem adaptados. Como esses animais poderiam sobreviver tempo o suficiente nesse novo ambiente para que a seleção natural pudesse favorecê-los? Por exemplo, suponha que um grupo de lagartos de coloração clara invadam uma região de solo escuro (como num fluxo de lava). Neste caso, os lagartos seriam facilmente reconhecidos pelos predadores e poderiam ser dizimados bem antes de haver tempo para que mudanças genéticas ao longo de gerações acabassem adaptando sua coloração àquela região.

O que Baldwin propôs é que algumas características dos animais não são fixas, podendo mudar ao longo de seu tempo de vida. Essa "plasticidade do fenótipo" permite que indivíduos alterem o bastante sua aparência ou comportamento para poderem sobreviver em um novo ambiente. Eventualmente, novas adaptações surgiriam através de seleção natural sobre mudanças genéticas através de gerações. Esse é o efeito Baldwin.

Pesquisadores da Universidade da Califórnia - Santa Cruz apresentaram um relato impressionante a respeito de um caso que ilustra bem esse efeito. Eles estudaram a mudança de cor em lagardos-de-mancha-lateral (da espécie Uta stansburiana) em função de seu ambiente. Quando esses lagartos eram movidos de uma região de solo claro (como areia) para uma região escura (como em um derramamento de lava), as mudanças na coloração começavam a aparecer em apenas uma semana e prosseguiam gradualmente pelos meses seguintes. Análises genéticas apontaram para variações em dois genes envolvidos na regulação da melanina (já falamos disso aqui).

Os descendentes desses animais herdam a coloração que seus pais adquiriam em tão pouco tempo. O que é mais incrível é que, se os lagartos forem levados de volta para a areia, eles podem ajustar sua cor novamente. A faixa de cores possíveis para um indivíduo desses lagartos é realmente impressionante. Na figura acima você pode ver um lagarto macho retirado de um derramamento de lava (esquerda) e o mesmo lagarto (direita) após ser mantido em laboratório sobre areia clara por quatro meses.

Esse tipo de plasticidade revela um complexo mecanismo que permite adaptações muito rápidas quando elas são necessárias. É uma espécie de providência por antecipação embutida no projeto dos lagartos para quando eles precisassem mudar de ambiente. Lembra muito mais o trabalho de um projetista extremante inteligente do que o de um processo de seleção natural sobre variações aleatórias.

Referências:

1. Ammon Corl, Ke Bi, Claudia Luke, Akshara Sree Challa, Aaron James Stern, Barry Sinervo, Rasmus Nielsen. The Genetic Basis of Adaptation following Plastic Changes in Coloration in a Novel Environment. Current Biology, 2018; DOI: 10.1016/j.cub.2018.06.075

2. "Adaptable lizards illustrate key evolutionary process proposed a century ago", https://news.ucsc.edu/2018/09/adaptable-lizards.html

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