quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Uma molécula de 600 milhões de anos?

O 26-mes, produzido  pela R. globostellata
Fósseis de esponjas são muito menos abundantes do que os de outros animais, como peixes ou mamíferos terrestres. Sendo assim, alguns pesquisadores têm concentrado seus esforços na busca de biomarcadores deixados nos locais onde essas esponjas teriam sido soterradas. Um biomarcador, neste caso, é simplesmente um composto químico produzido por espécies semelhantes nos dias de hoje e que, imagina-se, tenha também sido produzido pelas esponjas de tempos remotos.

A espécie de esponja moderna Rhabdastrella globostellata, por exemplo, produz um esteroide chamado 26-metilestigmastano (26-mes). Pesquisadores da Universidade da Califórnia encontraram traços de 26-mes em rochas de 660-635 milhões de anos (tendo como base a cronologia evolucionista). Esse composto tão pouco convencional foi, assim, tomado como evidência da presença de esponjas nesse período. Estamos ainda no período Neoproterozóico, cerca de 100 milhões de anos antes da famosa explosão do Cambriano.

Duas coisas chamam a atenção nessa descoberta. A primeira, é o fato de admitirmos que amostras de 26-mes tenham resistido a 660-630 milhões de anos de história. Em geral, compostos orgânicos se decompõem com muita facilidade (é um dos motivos para os produtos que usamos possuírem prazos de validade). Me parece mais coerente a interpretação de que as amostras não sejam tão antigas assim.

Além disso, a síntese de uma molécula como o 26-mes por um organismo não é uma tarefa nada fácil. É preciso movimentar um sofisticado aparato de enzimas numa sequência bastante específica. Quem já teve a oportunidade de trabalhar com síntese orgânica sabe que preparar uma molécula como o 26-mes a partir de compostos mais simples é um desafio e tanto. Agora imagine que isso tenha que acontecer de forma automatizada, sem qualquer intervenção. Na figura abaixo você pode ter uma ideia de como uma esponja moderna sintetiza esteroides. Então, mesmo quando retrocedemos muito no tempo geológico (em discutíveis milhões de anos), mais e mais encontramos evidência de que não existe algo que possamos chamar de "vida simples".



Referências:

1. J. Alex Zumberge, Gordon D. Love, Paco Cárdenas, Erik A. Sperling, Sunithi Gunasekera, Megan Rohrssen, Emmanuelle Grosjean, John P. Grotzinger, Roger E. Summons. Demosponge steroid biomarker 26-methylstigmastane provides evidence for Neoproterozoic animals. Nature Ecology & Evolution, 2018; DOI: 10.1038/s41559-018-0676-2

2. University of California - Riverside. "Sponges on ancient ocean floors 100 million years before Cambrian period: Molecular fossil evidence." ScienceDaily. ScienceDaily, 15 October 2018. <www.sciencedaily.com/releases/2018/10/181015113522.htm>.

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